sexta-feira, 20 de novembro de 2009

O Mundo de Flammarion

Por  Renato Zanola

A ciência ainda é muito imprecisa para poder analisar o Espiritismo e seus fenômenos, mas ignorá-la não podemos.

Camille Flammarion, famoso astrônomo francês, foi por um longo período o braço científico da doutrina espírita. Mas, seus contemporâneos detectaram já naquela época que ele era aplaudido demais, incensado demais e isso poderia significar um deslumbre e uma interferência nas comunicações.

O próprio Flammarion ficou desanimado com algumas contradições encontradas nas comunicações. Depois de ter recebido através de um outro médium uma comunicação completamente errada sobre a trajetória de um determinado astro, desabafava: "os espiritos nada tinham a acrescentar na astronomia".

No final de sua vida ele começou a achar que as mensagens recebidas por ele provinham dele mesmo, a ponto de Léon Denis chamar publicamente a sua atenção.

Segundo o médium Chico Xavier, Flammarion seria a reencarnação de Galileu, confirmando de certa forma o que os contemporâneos de Flammarion já desconfiavam. No Livro dos Médiuns os espiritos já advertiam Kardec da inconsistência nas comunicações sobre outros mundos (ver LM 296).

Mas Flammarion, devido a sua genialidade e simpatia pela causa espirita e após publicar a "Pluralidade dos Mundos Habitados" com apenas vinte anos, foi convidado por Kardec para colaborar na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas (SPEE). Esta publicação custou-lhe o seu emprego no observatório de Paris pois o diretor Leverrier não aceitou a tese espirita.

E na SPEE escreveu a "Uranografia Geral" ditada por Galileu que, conforme já dissemos, segundo Chico seria ele mesmo. Mas não foi a Uranografia que, de certa forma, desacreditou o movimento espírita; foi a
sua insistência na vida em Marte beirando o fanatismo e a ponto de arrastar boa parte da comunidade cientifica.

Quando Schiaparelli observou a existência de "canali" na superfície de Marte, fruto de uma ilusão de ótica, logo começou a afirmar que lá tinha civilização inteligente. E quem discordasse disso era considerado cético demais. O seu companheiro de profissão Percival Lowell ainda alavancou esse conceito de tal forma que até os anos sessenta do século vinte os mapas da superfície de Marte tinham os canais mapeados por Lowell.

Lowell era espirita e visitou Flammarion em Paris onde teve mais certeza ainda da vida marciana. Mas vieram as sondas Mariners, Vikings e demais que nos mostraram um mundo completamente diferente, onde a vida material seria muito difícil de existir.

A ciência, como Kardec já havia dito, se não for acompanhada pelo Espiritismo ela avançará sozinha. Porém, alguns desvairados afirmavam que as imagens vindas das sondas eram armações dos marcianos para nos ludibriar.... Mais detalhes dessa história da pesquisa de Flammarion e Lowell sobre Marte está no livro "The Planet Mars: A History of Observation and Discovery".

Um comentário:

  1. Olá Vital, olá Renato,
    Acho muito importante nós discutirmos claramente as divergências e incoerências dentro do movimento espírita, pois na minha opinião o conhecimento só avançará assim.
    Acredito que os amigos tenham base para afirmar que, como está no primeiro parágrafo, Flammarion teria sido acometido do mal da vaidade e isso teria interferido em sua produção mediúnica.
    Meu conhecimento biográfico dele indica que já havia questionado sua produção mediúnica ainda na época de Kardec (bastante jovem por sinal e ainda sem o sucesso profissional que alcançou na vida).
    Meu questionamento é se estamos tentando encontrar uma RAZÃO PARA AS FALHAS de sua mediunidade (excesso de elogios?), deixando de ver as FALHAS DO MÉTODO para o estudo dos fenômenos mediúnicos (os assuntos tratados pelos "espíritos" são necessariamente corretos? O que ganhamos interrogando os espíritos sobre os assuntos desconhecidos?).
    Temos que lembrar que Flammarion foi, além de um teórico espírita, um médium bastante importante da sociedade de Paris.
    Em seu livro "O desconhecido e os problemas psíquicos", já em idade avançada, ele coloca bem seus questionamentos sobre o que ele classifica como "excesso de credulidade". Nesse livro ele segue o rigor científico, inclusive levando em consideração a ciência psíquica nascente à época.
    Acredito que esse personagem está na questão central do método espírita. Vale realmente a pena estudá-lo.
    Parabéns!

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