quarta-feira, 7 de abril de 2010

O Prefácio “quase-esquecido” de “O Céu e o Inferno”. Parte I

Por Augusto Araújo
Originalmente publicado no blog Mansões Filosofais

O Prefácio “quase-esquecido” de “O Céu e o Inferno”. Parte I

Introdução 

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Em 1865, quando Allan Kardec (1804-1869) publicou o livro Le Ciel et l’Enfer ou la Justice Divine selon le Spiritisme (“O Céu e o Inferno ou a Justiça Divina segundo o Espiritismo”), o fez preceder de um Préface no qual, dentre outras coisas, propõe uma revisão de algumas de suas obras e apresenta o novo livro como continuidade de seu labor de desenvolvimento da doutrina espírita.[1]

Curiosamente, no entanto, este Préface parece ter sido esquecido pelos tradutores brasileiros da obra kardeciana. Esquecimento que só não foi total, visto que o público brasileiro dispunha de duas traduções parciais deste texto. Ambas, presentes nas traduções de Salvador Gentile e de Evandro Noleto Bezerra à Revue Spirite. No número de setembro de 1865, Kardec publicou um excerto do Prefácio na seção “Notas Bibliográficas”.[2]
Recentemente (2009), no entanto, foi publicada pela Federação Espírita Brasileira (FEB), uma nova tradução de O Céu e o Inferno (feita por Evandro Noleto Bezerra), a qual reintegra o Prefácio a seu lugar de direito. Em nota o tradutor explica que:
Este “Prefácio” não fazia parte da 4ª edição francesa de O Céu e o Inferno – edição definitiva – que serviu de base para esta tradução. Apareceu, na 1ª edição, publicada em agosto de 1865. Ao inseri-lo aqui, tivemos em vista resgatar para as novas gerações estes escritos quase desconhecidos do Codificador do Espiritismo e oferecê-los aos estudiosos da Doutrina Espírita.[3]
Desconheço se Kardec teria retirado o Préface apenas nesta última edição por ele revista (4ª edição de 1869), ou se já o fizera nas edições anteriores. A nota acima não oferece qualquer indicação a respeito. Igualmente desconheço os motivos pelos quais Kardec teria feito isso. No entanto, parece-me claro, os tradutores brasileiros se “esqueceram” do Préface de 1865 por que basearam suas traduções na edição de 1869.
Outro fato curioso envolvendo a obra em questão é que esta 4ª edição, assumida como definitiva, só veio a lume a 1º de Julho de 1869. Três meses, portanto, após a morte de Allan Kardec. Florentino Barrera, em seu livro Resumo Analítico das Obras de Allan Kardec [4], afirma que esta edição estabelece o texto definitivo da obra uma vez que teria sido revista pelo próprio Kardec. Informação corroborada pela Revue Spirite (Jul/1869) que a anunciou, seguida da observação:
A parte doutrinária desta nova edição, inteiramente revista e corrigida por Allan Kardec, sofreu importantes modificações. Alguns capítulos foram inteiramente refundidos e consideravelmente aumentados.[5]
Instigado pelo que acreditava fosse uma lacuna histórica, e, portanto, sem conhecimento do trabalho de Evandro Noleto Bezerra, empreendi minha própria tradução do texto. Empreitada assumida com o apoio do amigo Vital Cruvinel (um dos editores do blog Decodificando O Livro dos Espíritos e de quem é a revisão da tradução). Nossa ideia original era a de enviar a tradução para publicação em algum periódico interessado. No entanto, diante da realidade daquela outra iniciativa, desistimos temporariamente da ideia.
Como tradutor, meu empenho foi de evitar tanto o literalismo simplista, que ignora as distâncias linguísticas e temporais entre o texto original e o esforço de tradução; quanto uma abordagem mais livre que pudesse desvirtuar o sentido original que o autor quis impingir a sua obra, ou que pudesse abrir espaço para interpretações dúbias de sua mensagem.
Depois de concluída a tradução e sua revisão, e tão logo tomamos conhecimento do trabalho realizado por Evandro Noleto Bezerra, tivemos o cuidado de cotejar as traduções em busca de possíveis equívocos de compreensão de nossa parte. E, de minha parte, fiquei satisfeito em constatar a proximidade bem como a distância pelas opções linguísticas e estilísticas assumidas. O que poderá ser facilmente percebido pelo leitor num breve exercício comparativo. Visando possibilitar tal comparação, bem como contribuir com o avanço dos estudos da obra kardeciana no Brasil, decidi, com a anuência de Vital Cruvinel, tornar público este modesto empreendimento conjunto.


[1] Ao contrário do que aconteceu com as demais publicações de Allan Kardec, a obra O Céu e o Inferno parece não ter obtido imediatamente um grande sucesso de vendas. Se comparado com a opus magna de Kardec – Le Livre des Esprits – a qual apenas entre 1860 (ano da publicação da 2ª e definitiva edição) e 1863 somou 9 edições (10 se contarmos a partir da 1ª edição de 1857); ou mesmo com o sucesso de La Génèse, les miracles et le predictions selon le spiritisme (“A Gênese, os milagres e as predições segundo o espiritismo”), que obteve três edições no mesmo ano de sua publicação (1868), com a diferença de apenas um mês entre elas; o penúltimo dos grandes tratados kardecianos teve desempenho bastante modesto. Segundo Florentino Barrera (2003, p. 71-78), a segunda edição de O Céu e o Inferno só veio a lume em 1868, três anos após seu lançamento, portanto. Ainda segundo Barrera, a 3ª edição data de 1868-1869; e 4ª edição 1869.
[2] KARDEC, Allan. Revista Espírita, Set/1865. Notas Bibliográficas. Rio de Janeiro: FEB, 2006. p. 377-382. (Trad.: Evandro Noleto Bezerra).
[3] BEZERRA, Evandro Noleto. Nota do Tradutor. In: KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. Ou a justiça divina segundo o espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, 2009. p.11.
[4] BARRERA, Florentino. Resumo Analítico das Obras de Allan Kardec. São Paulo: USE/Madras, 2003. (Trad.: David Caparelli). Há uma discrepância na informação da data da publicação da 4ª edição fornecida por Barrera e o anúncio publicado na Revue Spirite  de Julho de 1869. O pesquisador fala do lançamento ocorrido a 1º de Julho de 1869. A Revue, embora no número de Julho, dá como data do início das vendas da nova edição a 1º de Junho, um mês antes, portanto. Tanto Barrera pode ter se equivocado, quanto pode ter ocorrido um erro gráfico na publicação da Revue. Como não tenho subsídios para uma correta avaliação da questão, deixo-a em aberto, por enquanto.
[5] KARDEC, Allan. Revista Espírita. Jul/1869. À Venda em 1º de Junho de 1869. Rio de Janeiro: FEB, 2005. p. 309-310. (Trad.: Evandro Noleto Bezerra). A rigor o artigo deve ter sido escrito por A. DESLIENS que, após a morte de Allan Kardec, tornou-se o secretário-gerente da Revista Espírita, cargo, na prática, equivalente ao de redator. Contudo, sigo aqui, ao fazer essa referência bibliográfica, o padrão indicado pelos dados fornecidos pela editora na ficha catalográfica do volume correspondente ao número XII da coleção da Revista Espírita.

4 comentários:

  1. Felipe Gonçalves28 de abril de 2010 11:21

    Caro Vital Cruvinel,

    Também sou um jovem pesquisador espírita. Mantenho contato com vários espíritas, faço pesquisas e estou adquirindo muitas obras raras. Podemos manter contato? MSN: felipe_vilamaria@hotmail.com

    Abraços!!!

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  2. Legal, Felipe!

    Vamos manter contato sim! É sempre muito bom conhecer mais pessoas interessadas em fazer pesquisas. Tenho publicado alguns posts no blog Decodificando o Livro dos Espíritos e estou fazendo uma pesquisa com os grupos mediúnicos de São Carlos (está no blog Rede de Pesquisas Espíritas).

    Já mandei um email pra você... se por acaso não chegar envie um pra mim: vital.cruvinel@gmail.com

    Abraço!

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  3. Caro Augusto.
    Achei muito importante a divulgação deste prefácio.
    Consultei o mesmo numa edição da CELD. Gostaria de saber em que parte do prefácio Kardec propõe uma revisão de algumas de suas obras.
    Saudações fraternas.
    José Roberto
    jraribeiro@gmail.com

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  4. Olá, José Roberto!

    Por favor, encaminhe sua dúvida ao Augusto através do blog dele, Mansões Filosofais:

    http://mansoes.blogspot.com.br/2010/03/o-prefacio-quase-esquecido-de-o-ceu-e-o_31.html

    Obrigado pela visita!

    Vital Cruvinel.

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