sábado, 14 de maio de 2011

Analisando a crítica à carta da CEPABrasil

Em meu último post publiquei a Carta de Posicionamentos da CEPABrasil por considerá-la muito adequada a forma como entendo e vivo o espiritismo. Mas, claro, outras pessoas podem considerar justamente o contrário, especialmente por não concordar com o aspecto laico do espiritismo.

Entre estas pessoas está o escritor e palestrante espírita Sergio Aleixo do Rio de Janeiro. Em seu blog Ensaios da Hora Extrema ele faz uma crítica contundente a esta carta. Por outro lado, esta crítica contém alguns pontos obscuros e, por isso, vou procurar esclarecê-los.


Sergio inicia suas críticas pelo uso na carta da palavra 'início' em associação a fase inicial laica representada por uma resolução do Congresso Espírita Internacional de 1888. Ele "corrige" o texto da carta informando que o 'início' do espiritismo data de 1857. Mas, a sua interpretação do texto é que está equivocada. Uma leitura desapaixonada mostrará que o autor da carta desejou demonstrar que a proposta laica tem suas origens numa fase inicial do Espiritismo quando o movimento espírita brasileiro ainda era inexpressivo. Ou seja, não desejou que a interpretação fosse a do "ponto inicial" do Espiritismo.

De qualquer forma, o autor se equivoca ainda ao contrapor uma proposta laica com a idéia de um laço fraterno baseada no ensino moral de Jesus. Aliás, Jesus não é exclusividade das religiões. Qualquer ciência ou filosofia pode valorizar a ética de Jesus, pode apresentá-lo como um modelo sem, com isso, ser considerada religiosa.

Mais a frente o autor tenta novamente encontrar alguma inconsistência no discurso cepeano quanto ao questionamento de conceitos espíritas. Vejam o que está escrito na carta:

5.3 - A CEPA não questiona os princípios fundamentais do espiritismo – existência de Deus, imortalidade da alma, comunicabilidade entre encarnados e desencarnados, reencarnação, pluralidade dos mundos habitados e evolução infinita. Todavia, poderão ser questionados conceitos e interpretações a eles referentes expressos na literatura espírita por autores encarnados ou desencarnados ou que se tornaram correntes entre os espíritas;

Agora vejam o que Sergio escreveu:

Asseguram que “a CEPA não questiona os princípios fundamentais do Espiritismo”, embora propalem que “poderão ser questionados conceitos e interpretações a eles referentes, expressos na literatura espírita” [5.10].

Provavelmente Sergio deixou que suas idéias preconcebidas falassem mais alto. Em outras palavras, os conceitos fundamentais do espiritismo não são questionados pela CEPA, mas são questionadas as interpretações que qualquer um de nós faz destes conceitos fundamentais. Por exemplo, é evidente que o espírita não questiona a existência da reencarnação, mas tem o direito de questionar uma possível reencarnação no mundo espiritual.

Ao contrário do que Sergio diz, a busca de atualização do espiritismo não significa considerar Kardec como uma corrente atrasada. Kardec nunca deixará de ser o fundador do espiritismo e ele próprio desejava que o espiritismo continuasse em constante processo de atualização.

O crítico Sergio tenta subliminarmente imputar a CEPA o desejo de ser avalista de uma atualização ou revisão do Espiritismo. Mas, na carta está explícito que não é este o seu desejo conforme se observa, por exemplo, no seguinte ponto:

5.10 – A CEPA não alimenta o propósito de efetuar, com exclusividade, a revisão pontual da Doutrina Espírita. Pretende, sim, estimular um processo de reflexão entre os espíritas com vistas a assegurar o futuro e a permanência do espiritismo;

Também não deveria causar espanto ao Sergio a idéia de que o consenso deve acontecer entre os encarnados e desencarnados. Ora, os encarnados são espíritos tanto quanto os desencarnados. Não foi assim que Kardec nos ensinou?!

E causa muito espanto a mim que Sergio seja contra a idéia de respeitar as diferenças nas interpretações feitas pelos agrupamentos espíritas. Por acaso deveria ser diferente? Respeito não significa concordância, mas dar ao outro o direito de ter a sua própria interpretação.

Para o espírita que tem uma postura religiosa é compreensível que fique chocado ante a questionamentos do trabalho empreendido por Kardec. Mas Kardec não pediu para ser venerado e nem considerá-lo infalível. Os cepeanos, entre os quais me incluo, têm o direito de questionar a tentativa demasiada de conciliar os conceitos espíritas com a teologia católica.

Talvez na época de Kardec fosse mesmo necessário reinterpretar os textos bíblicos e evangélicos para que os católicos da época tivessem a oportunidade de refletir sobre os "novos" conceitos espíritas. Mas, hoje em dia, esta reinterpretação pode estar fazendo mais mal do que bem. Quantos não são os espíritas que ainda acham que Jesus veio nos salvar de nossos pecados?

Por outro lado, não significa que estes questionamentos impeçam os cepeanos de valorizarem toda a obra kardeciana, incluindo aí O Evangelho Segundo o Espiritismo. Aliás, esta valorização fica clara no tópico 8 da carta. É uma pena que Sergio e outros críticos da CEPA continuem procurando "pegadinhas" para dizer que a CEPA não aceita o Evangelho.

Como já havia dito anteriormente os cepeanos respeitam a grande maioria dos espíritas que acha adequado nos dias de hoje associar a palavra espiritismo à palavra cristianismo. Mas também os cepeanos desejam o mesmo respeito ao acharem que esta associação é inadequada; e que existem bons argumentos para considerá-la assim.

A crítica de Sergio sobre esta maneira dos cepeanos entenderem a palavra 'cristianismo' revela que muitos espíritas ainda pensam ser necessário tomar para si o Jesus das igrejas cristãs, isto é, de dizer para os não espíritas que todos eles estão equivocados (não são cristãos). Já passou da hora de todos nós espíritas nos atentarmos para o ensino moral de Jesus como o próprio Kardec salientou na introdução do seu Evangelho.

É lamentável que os críticos da CEPA, como o Sergio, não compreendam a postura equilibrada dos cepeanos em não colocar, a priori, o espiritismo num lugar superior a outras fontes de conhecimento. De outra forma, nós estaríamos sendo presunçosos e sectários.

De toda forma, temos que respeitar a opinião de todos e também a opinião do Sergio de que a proposta cepeana nos "levará a desnaturação e morte do Espiritismo". Mas, eu pergunto: por acaso esta postura sectária irá nos levar para algum lugar diferente disso?

10 comentários:

  1. Parabéns, Vital! Pela serenidade, clareza de raciocínio e força em seus argumentos! Um grande abraço. A.

    ResponderExcluir
  2. Caro Vital,
    Endosso o que disse o Augusto Araújo. Você foi muito feliz nas suas contestações. Mas infelizmente, tenho que salientar que, por mais que nos expliquemos, os que discordam dos cepeanos sempre entendem mal e até deturpam nossos conceitos. Ou por incapacidade de raciocinar fora de seus termos, ou por pura má fé, mesmo.

    ResponderExcluir
  3. Oi Vital,
    Análise serena, profunda e que vai doer naqueles que analisam as ideias com a cabeça enfiada no buraco de seus preconceitos, feito um avestruz doutrinário. Parabéns.
    Eugenio Lara

    ResponderExcluir
  4. Seria possível publicar referida carta em meu blog: www.comkardec.com ?

    ResponderExcluir
  5. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  6. Ricardo Matos Damasceno15 de maio de 2011 10:37

    A crítica e a contracrítica permaneceram em uma zona fronteiriça e um tanto cinzenta. Natural a defesa da CEPA por um "cepalino" ou mesmo o apodo a ela por um "anticepalino". Um e outro cometem o erro do FETICHISMO DOUTRINÁRIO: de um lado, o CRÍTICO, o "AVESTRUZ" a se absconder em um cavouco; de outro, o contracrítico, o PEIXE a se pôr fora da água, tentando respirar "NOVA ATMOSFERA". Entre o avestruz e o peixe só medeia a diferença do meio de decisão conceitual, a qual não se compatibiliza com a Doutrina Espírita. De mais a mais, a Doutrina Espírita e a interpretaçãpo da Doutrina são distintas, porém, no enfoque realista do Espiritismo, embora se intente convertê-lo em uma "fenomenologia espiritual" (em sentido filosófico), hão também de se escolher as interpretações que - ao máximo - preservem o texto. Indubitavelmente, a tal reencarnação no mundo espírita e a gravidez de passarinho são absurdos, mas isto aí não são interpretações consideráveis do princípio, porquanto não o conservam na sua identidade doutrinária. Isto de "questionar conceitos e interpretações a ele referentes" tem servido na CEPA a um transbordamento de intenções, caracterizado por um velado requestionamento do Espiritismo, mediante valoração e desvaloração de obras da Codificação. Mesmo negando isto, eis o que se nos mostra. Ora!!! Não colocar o Espiritismo acima das OUTRAS FONTES DE CONHECIMENTO equivale a igualizar a FONTE GNOSEOLÓGICA da Doutrina a qualquer outra, tão a gosto dos que a reputam uma simples construção filosófica, na perspectiva negativa da sua natureza revelatória claramente posta na Parte II da Introdução a OESE e no Cap. I de AGE. Ademais, não se intenta recuperar o Cristo das igrejas porque o delas não constitui o Jesus, nem histórico, nem espiritual. Logo, a contracrítica está inconsistente e perfunctória em tal análise. O cristo do Espiritismo está na base do Cristianismo Primitivo, conquanto a a religião cristã haja sido idealizada por Paulo de Tarso. Desse modo, o AVESTRUZ e o PEIXE parecem fora do seu HABITAT.

    ResponderExcluir
  7. Olá, pessoal!

    @Augusto, Nícia, Eugenio
    Muito obrigado queridos amigos! Fico feliz em ter sido claro... mal entendidos são um grande problema.

    @Leonardo
    Acredito que sim, Leonardo. A carta é pública... manda ver!

    @Ricardo
    Achei interessante suas metáforas com os animais. Realmente, já me senti como este peixinho que você coloca e sei que muitas pessoas que buscam se desvencilhar da religião também sentem o mesmo. Porém, hoje este peixinho já se transformou num passarinho e está bem adaptado a nova atmosfera.
    Em relação a valoração do material produzido por Kardec é evidente que ela existe. Cada espírita ou agrupamento espírita vai dar um determinado valor a Revista Espírita, ao Livro dos Espíritos, ou ao Evangelho, por exemplo. Mas o importante é que os cepeanos valorizam tudo o que foi produzido por Kardec.
    Quanto ao uso do termo 'cristão' é preciso considerar o significado que se dá a ele pela maioria das pessoas. E cada um de nós decide se é adequado ou não adotar um significado diferente do desta maioria.

    Abraços a todos!

    ResponderExcluir
  8. Oi, de novo, Vital:

    Não resta dúvida: seu pronunciamento, assim como a Carta de Posicionamentos da CEPABrasil, são objetivos e perfeitamente razoáveis. Mas, ainda assim, meu caro, a linguagem é sempre fonte de mal-entendidos. Portanto, não se assuste, se alguém aparentemente distorcer suas palavras,como Aleixo o fez com a "Carta"... os filtros, na maioria das vezes, são mais poderosos que pensamos.

    Siga sereno, como sempre; e fiel à sua compreensão. E conte com minha amizade e admiração! Um grande abraço.

    ResponderExcluir
  9. Parabéns! Talvez a serenidade e a coerência cepeana não atraia tantos seguidores quanto as cores fortes da emotividade gerada pela fé e pelo apego cego às idéias; mas elas atraem alguns, com certeza, e dos bons.

    ResponderExcluir
  10. Bom conselho, Augusto!
    Obrigado pelo carinho de sempre!

    Valeu, Luiz!
    Ainda mais se tiver que pôr a caixola pra funcionar! Você bem sabe disso!

    ResponderExcluir